segunda-feira, 24 de maio de 2010

RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 4

Enoque Alves Rodrigues
Depois de passar pelo Casarão cor de rosa do Sr. Antonio Miranda e Dona Edite, atravessar a Chácara de Sá Antonina e o Sitio de Juca Brinco, o transeunte que entrasse no Brejo das Almas vindo de Montes Claros via-se no lado direito da descida uma pequena pousada cujo dono era o velho Mateus gordo. Ali o viajante encontrava além de boa comida, pastagens vastas para seus animais e água abundante para seu banho.
Mateus Gordo era o que se podia denominar de “caboclo bom de prosa”. Pitando seu cachimbo de chifres de bode, carregado com fumo “in natura” produzidos por ele próprio em seu roçado, entre uma baforada e outra, ia vertendo histórias de seus tempos de menino em sua querida de Grão Mogol. Uma dessas histórias, presenciei-o contar por no mínimo uma duas vezes. No entanto, não obstante o interlocutor saber previamente o final de cada historia, era sempre uma sensação nova ouvi-lo contar outra vez, pois ao contrario do final que todos sabiam, cada história ele contava diferente de maneira que nós só sabíamos tratar-se da mesma história quando esta já estava caminhando para o final. Para dar veracidade a esta história ele nos apresentava sempre a “prova do crime”: uma velha e enferrujada espingarda de cano torto, quase em forma de anzol, que segundo ele dizia, era para matar onça na curva. De cócoras, no meio de uma roda de ouvintes atentos, Mateus gordo iniciava sua antiga cantilena sempre desse jeito:
-Foi lá em Grão Mogol quando eu era rapazinho e sai com meu pai para caçar veado no serrado, nas imediações da cidade. Meu pai caminhava na frente com sua espingarda de dois canos e eu ia atrás dele com minha pequena espingarda de um cano só. Eu tinha de seis para sete anos e já sabia atirar. Acertava numa cidra a um quilômetro de distância sem fazer mira.
-De repente eis que surge diante de nós uma tremenda onça pintada acompanhada de seus filhotes. Ela de tão faminta e braba que estava nem viu a gente! Foi meu pai que mexeu com ela puxando-lhe o rabo. Não deu tempo para nada! De um só tapa, ela jogou meu pai longe e partiu para cima de mim... Não dava para eu correr. Tive que encarar a fera! Afastei uns quatro metros para trás e engatilhei minha pequena espingarda de caçar passarinho. Eu pretendia com isso apenas dar um susto nela para que eu pudesse correr. Mas quem foi que disse que a maldita espingarda disparou? Eu apertava o gatilho que acionava o cão da espingarda que picotava a espoleta que não explodia para queimar a pólvora. Enquanto isso, a onça ficava em minha frente, de pé, com os dois braços abertos, como se estivesse me convidando para brigar... Não teve jeito. Joguei a espingarda fora e parti para cima dela. Engalfinhamo-nos, rolando ladeira abaixo até cairmos dentro de um riacho. Nem dentro dágua a gente se desgarrou. Nesse entrementes, meu pai que até então se achava no chão conseguiu se levantar e veio em meu socorro. Ela nem deu atenção pra ele; ao contrário, ficou mais nervosa ainda. Pegou-me pelo pescoço e quando já estava quase me enforcando, meu pai que usava rapé, se lembrou de jogar uma pequena porção na água. Foi minha salvação! Ela começou a se contorcer toda de vontade de espirrar e quando não agüentou mais pôs a cabeça para fora. Foi quando meu pai, de posse de um porrete deu-lhe uma cacetada nas fuças deixando-a tonta, quando finalmente consegui me libertar. Não foi fácil.
-E aonde é que entra nessa história a espingarda de cano torto que está em sua mão, Mateus gordo?
-Não. Ela não faz parte desta história, não mais da outra que oportunamente lhes contarei.
Inté, brejeiros!!!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.

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