segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MENSAGENS DE OTIMISMO PARA 2011

MENSAGENS DE OTIMISMO PARA 2011

Enoque Alves Rodrigues

Eu juntamente com a grande paixão da minha vida, a Dona Teresa, Anjo de Luz e Bondade, que comigo está e sempre esteve há mais de trinta anos.

Neste final de ano quero desejar de coração a todos os meus amigos e leitores os mais sinceros e profundos votos de fé, perseverança e muito otimismo. Saibam meus queridos,  que a mola propulsora que faz as coisas acontecerem não se restringe somente ao ato do fazer, mas, principalmente, ao ato de ACREDITAR. Acreditar é fé. É OTIMISMO. Creiam-me feliz com o sucesso de todos vocês. ACREDITEM. Seguem abaixo algumas frases de otimismo para vocês.

FELIZ 2011 MEUS AMIGOS!!!

VINTE E CINCO FRASES DE OTIMISMO PARA VOCÊ MEDITAR:

1. "O pior naufrágio é daquele que não saiu do porto"

2. "Só a vida vivida para os outros vale a pena ser vivida"

3. "De tropeços e vitórias e quedas se constrói a experiência"

4. "Acima do homem que salta, Há o homem que voa"

5. "Dói fracassar, mais doloroso ainda é nunca tentar acertar"

6. "Uma pessoa fechada jamais abrirá seus horizontes"

7. "Onde existe fé, sempre brilha a esperança"

8. "Os ventos e as ondas estão sempre do lado dos navegadores mais competentes"

9. "O rio atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar obstáculos"

10. "É muito bom ser importante, mas importante mesmo é ser Bom

11. "Creia naquele que tentou"

12."Todo homem tem um vazio do tamanho de Deus"

13."Dentro de cada pessoa existe uma grande sede de felicidade e propósito de vida"

14."É fácil estar sentado observando o que é difícil é levantar-se e agir"

15. Freqüentemente , a melhor maneira de vencer é esquecer de registrar os resultados"

16. "Nem sempre convém virarmos a página, pôr vezes é preciso rasgá-la"

17."Há coisa que nunca voltam atrás: a flecha lançada,

a palavra pronunciada e a oportunidade perdida"

18."É quando fugimos que estamos mais sujeitos a tropeçar"

19."Tente ser mais simpático do que o necessário"

20."É muito melhor Ter esperanças que não Ter"

21. "As pessoas querem aprender a nadar e Ter um pé no chão ao mesmo tempo"

22."Até agora as coisas aconteceram a você, desta data em diante

faça com que você aconteça as coisas"

23."Cada dificuldade encerra uma vantagem; cada problema oculta uma solução"

24."Na batalha da vida só vencem os fortes e um homem forte sempre determina o seu destino"

25."Só é vencido aquele que admite a si mesmo que está derrotado"

Enoque Alves Rodrigues



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XII - UM POUCO DO DR. JOÃO ALVES EM MONTES CLAROS 1

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XII - UM POUCO DO DR. JOÃO ALVES EM MONTES CLAROS 1

Enoque Alves Rodrigues

Corria o ano de 1930.
O estopim da revolução continuava fumegando com a mesma chama ateada em Montes Claros, na Praça Dr. João Alves.
Não discorrerei aqui sobre os lamentáveis acontecimentos havidos naquela noite fatídica de 6 de fevereiro, resumindo-me apenas a transcrever alguns artigos de jornais da época, com referência ao ambiente de simpatia que cercava o famoso médico.
Para os leitores da nova geração, que talvez desconheçam o fato, farei um pequeno retrospecto ao ano da revolução, levando-os até o centro da grande cidade sertaneja, de modo que se possam inteirar do ambiente que ali reinava no dia 6 de fevereiro de 1930.
A cidade achava-se dividida em duas grandes facções políticas, uma ao lado da “Aliança Liberal” e a outra com a “Concentração Conservadora”, ambas a espera de que o seu candidato saísse vitorioso.
No mês de fevereiro, esperava-se na cidade uma caravana política, composta dos homens de proa da “Concentração”, com o fim, diziam, de se oporem ao candidato que sucederia naquele ano ao grande Presidente Antonio Carlos.
A caravana desembarcou à noite, tendo sido recebida com grandes manifestações. Da praça da Estação, desceu rumo ao centro da cidade, passando, porém, pela praça Dr. João Alves, cuja residência se achava iluminada e repleta de amigos seus.
Ao passar a caravana em frente à residência do ilustre médico, alguém ateou fogo no estopim que incendiaria toda aquela massa humana que se movia ás acotoveladas, atirando uma bomba no Dr. João José Alves.
A esse ato impensado, que por certo nunca ocorrera às pessoas de bom senso que dirigiam a política da “Concentração Conservadora”, seguiu-se um tiroteio de conseqüências lamentáveis, nele falecendo correligionários de ambos os lados, não falando naqueles que se tornaram vitimas inocentes da grande tragédia!
Como o Governo Central fosse o mentor da oposição que se fazia no Estado ao Governo do Presidente Antonio Carlos, a cidade foi transformada em grande praça de guerra, principalmente com o intuito de coagir as autoridades que formavam o volumoso processo em que se achavam envolvidos o próprio Dr. João Alves e vários dos seus amigos.
A imprensa do País, ávida de sensações, dirigida por inimigos da Capital Federal, lançava a peçonha na pessoa de D. Tiburtina, tornando-a desse modo conhecida até no estrangeiro, como o protótipo da mulher cognominada “Paraíba”!
A “Folha do Norte”, jornal que se editava em Montes Claros naquela época, lançando-se ao centro da grande arena, aonde se procurava colocar em holocausto o ilustre medico e sua família, escreveu no seu numero de 15 de junho daquele ano de 1930 o seguinte artigo:
“O Sr. Dr. João Alves deve estar satisfeito, intimamente satisfeito, com o ambiente de simpatia que se formou em torno de sua pessoa, após os sombrios dias que precederam o 6 de fevereiro deste ano, data fatídica para a nossa cidade, que assistiu estarrecida o desenrolar em suas vias publicas de um conflito sangrento, onde foram ceifadas tantas vidas preciosas e, mais do que isso, inocentes.
“A malta de indivíduos famélicos de um falso congresso econômico, exploração política do mais baixo calão, desembarcando nesta terra tradicionalmente hospitaleira e acolhedora, provocou a carnificina que tanto deu que falar ao mundo civilizado.
“Desse ajuntamento fatídico, local e adventício, entretanto, ninguém pagou o crime nefando, saindo todos os culpados ilesos, quando pessoas simples, ignorantes do perigo, foram sacrificadas em holocausto à sanha de um Carvalho Brito e asseclas.
“A cidade sentiu-se horrorizada e cada um de seus habitantes procurou isolar-se o mais que pode da hecatombe.
“Os partidários do britismo, entretanto, menos humanos, ao invés de lastimar o ocorrido com o sentimento e dignidade, começaram a explora-lo, dirigindo-se a carga de sua metralha contra um homem que era preciso exterminar, por constituir o maior obstáculo local à consumação de suas idéias dissolventes.
“Foi o Dr. João Alves, que se viu por uma ironia, envolvido no conflito, justamente ele que, como ponderou o nosso iminente prelado, Bispo de Montes Claros, tem tanto zelado a vida alheia, com o sacrifício da sua própria.
“Mas a metralha adversária, em tiroteio cerrado, fez dele seu alvo, empregando cartuchame carregado de indignidade, mas sempre de festim, por não produzir os efeitos desejados.
“Figura única sobre quem recaiam os ódios, responsável argüido para o acontecimento, de que calculadamente fugiram os seus provocadores, num ambiente de sobressaltos pelo acumpliciamento do governo federal, o Dr. João Alves manteve-se firme na posição de quem estava tranqüilo com a sua consciência, não fraquejando um só instante, fortalecido por um predicado que nunca o abandonou: a virtude.
“Hoje, serenado o ambiente, afastada a ameaça que a quase todos atemorizou, a ponto de alguns terem desertado momentaneamente do convívio do velho companheiro, a sua figura aparece ainda maior, cercada de veneração pública, que nele vê não um ferrabrás sanguinolento, mas um espírito aureolado pelas qualidades que sempre o distinguiram, de virtude pública e privada.
“O protesto coletivo que inserimos noutra página é uma confirmação disso e vale por uma consagração significativa da individualidade que já nos deu tanto e de quem ainda esperamos muito”.
Breve, na medida do possível darei seqüência a historia de vida desse grande Brasileiro, que nasceu e viveu com grande galhardia no norte das Minas Gerais e que tanto fez por Montes Claros, Francisco Sá e toda região.
Vejam mais em meus blogs: http://www.blogger.com/home?pli=1

Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 11 de dezembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XI – A PRIMEIRA USINA DE LUZ. OS AVANÇOS DO BREJO...

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ XI – A PRIMEIRA USINA DE LUZ. OS AVANÇOS DO BREJO...


Enoque Alves Rodrigues

Foi durante a administração do Dr. Artur Jardim, frente a Prefeitura de Francisco Sá, que se construiu a primeira usina de luz elétrica, ainda que a titulo precário, porquanto se tratava de uma usina a vapor, movida a lenha.
Ainda que em “A Gazeta do Norte”, numero de 2 de dezembro de 1939, é que se vê a noticia das festividades de toda aquela limitada população brejeira em grande regozijo por tão auspicioso e esperado evento. Diz o Jornal:
“Conforme noticiamos, realizaram-se no domingo e segunda-feira ultima as solenidades da inauguração da luz elétrica de Francisco Sá, notável empreendimento com que a operosa administração do Dr. Artur Jardim, ilustre prefeito daquele município, acaba de dota-lo.
Às 6 horas da tarde de domingo teve lugar a grande manifestação popular ao Dr. Artur Jardim, tendo falado a gentil senhorita Geralda de Lourdes Silveira, pelo Grupo Escolar, professora Salvina Miranda, pelas Escolas Municipais o Dr. Edgard Silveira, pelas classes conservadoras do município e o Farmacêutico Ferreira de Oliveira, em nome da Sociedade de Francisco Sá.
O Dr. Artur Jardim, em excelente discurso, agradeceu as homenagens, sendo improvisado em seguida animado baile que decorreu até as primeiras horas do dia.
No dia seguinte, lá pelas 6 horas da manhã, hasteou-se o Pavilhão Nacional em frente a Prefeitura e as 9 horas celebrou-se a Missa Campal no local da usina e bênçãos solenes da mesma.
Às 12 horas, na aprazível chácara do Dr. Francelino Dias, teve lugar o churrasco oferecido à Sociedade pelo prefeito do município. Essa festa realizou-se num ambiente de grande alegria e cordialidade, sendo o prefeito Artur Jardim saudado pelo Sr. Olyntho Silveira, cujo discurso publicamos abaixo.
O Dr. Artur Jardim agradeceu as aplaudidas palavras, sendo ainda ouvidos outros oradores.
Ás 16 horas teve lugar a inauguração da usina, tendo o Dr. Artut Jardim proferido magnífico discurso que abaixo publicamos. Falaram também o Dr. Antonio Teixeira, prefeito de Montes Claros e o Sr. Olyntho Silveira, cujos discursos foram bastante aplaudidos.
Ás 22 horas teve lugar o grande baile nos salões do Grupo Escolar, tendo comparecido ao mesmo os elementos mais representativos da Sociedade de Francisco Sá e numerosos visitantes, tendo as danças, ao som de excelente orquestra decorrido com grande animação até as primeiras horas da manhã.
Aos presentes, serviram-se finas bebidas e doces em artísticas mesinhas, cujos doces eram fabricados na região.
Sucedendo ao prefeito Artur Jardim de Castro Gomes, outros cidadãos estiveram à frente da prefeitura municipal de Francisco Sá. Um deles, o Dr. Antonio Tenório, nomeado em virtude dos desmandos que imperavam naquela época, fez do tempo em que governou o município uma verdadeira noite de calmaria, recordando, por certo, o período que a civilização atravessava na idade média, ao qual foi chamado de “a noite de mil anos...”.
Com a verdadeira corrida de interventores no Estado, outra administração atravessou o município, como verdadeiro relâmpago que singra o espaço, motivo por que nada temos que dela anotar.
Depois, foi nomeado o Sr. Benjamin Marinho Figueiredo, que deu inicio ao serviço de abastecimento de água e saneamento básico da Cidadezinha de Francisco Sá, ou melhor, o velho Brejo das Almas.
Dez anos depois, ou seja, no ano de 1949, a cidade de Francisco Sá rejubilava-se com a inauguração do serviço permanente de luz elétrica, cuja energia era fornecida pela usina de Santa Marta, a mesma que abastecia a Cidade de Montes Claros.
Esse grande melhoramento se deu assim como outros incontáveis avanços, durante a administração do inesquecível prefeito eleito pelo povo, Dr. Feliciano Oliveira.
Para que fique anotado como parte da história do município, transcreverei o convite que a municipalidade fez, na época, ao povo de Francisco Sá e aos municípios vizinhos:
CONVITE: A municipalidade de Francisco Sá tem a satisfação de convidar Vossa Senhoria e Digníssima família para os festejos do próximo dia 7 de setembro.
Francisco Sá, 24 de Agosto de 1949. ASSINADO: Feliciano Oliveira – Prefeito.
Na seqüência vinha a programação a ser realizada nas comemorações.
Belos tempos aqueles...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


domingo, 28 de novembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ X – AS ÁGUAS DO GORUTUBA

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ X – AS ÁGUAS DO GORUTUBA


Enoque Alves Rodrigues

Belos tempos aqueles quando juntamente com uma grande turma de moleques todos de uma mesma faixa etária, saiamos para nos divertirmos às margens do velho rio gorutuba, que nasce em Francisco Sá, antigo Brejo das Almas.
Ao contrário de seu lastimável estado atual devido a vários fatores negativos como a pesca predatória, lançamento de resíduos e esgotos em seu belo leito, assoreamento, ausência de matas ciliares em suas margens, naquela época podia se dizer que o rio gorutuba era o principal atrativo que havia em Francisco Sá. Famílias inteiras se dirigiam para lá a cada final de semana, para nadarem em suas límpidas águas, ou simplesmente para observarem suas quedas dágua e o vai-e-vem das lavadeiras ao seu redor.
O rio gorutuba banha várias cidades do norte das Minas Gerais, e seu caudaloso curso de águas ainda desperta muitas atenções até mesmo aos menos observadores. Talvez, quem sabe, pelo simples fato de possuir suas nascentes dentro do município de Francisco Sá, “beldade do norte de Minas”, seja ele tão belo assim.
Piscoso nos tempos de antanho, restam hoje poucas atrações neste setor. Mas ainda continua belo e faceiro.
Muitos cronistas residentes em cidades banhadas pelo gorutuba ao norte das Gerais como Porteirinha, Janaúba e adjascências descrevem-no como um rio em processo de decomposição e com plena carência de revitalizações urgentes. Pura verdade. O processo de degradação do gorutuba foi tão vertiginoso que hoje, mesmo com todo otimismo que possamos ter, é muito difícil recupera-lo. Certo está que jamais voltará a ter a mesma beleza e salubridade de seus tempos áureos. Faz-se, no entanto, indispensável que as autoridades constituídas iniciem, imediatamente, trabalhos sérios com estes objetivos. Caso contrário pouco ou quase nada restará deste que foi o mais lindo rio do norte das gerais senão um triste e melancólico filete de águas turvas e sem vida a deslizarem-se, lentamente, pelos descambados do sertão das Alterosas na esperança de que um dia, quem sabe, volver-se mar. Com muitos espécimes e piscicultura abundante, com águas de um azul cristalino, porém salgadas. Bem, nesse caso, então, será qualquer outra coisa, menos o velho rio gorutuba de nossos sonhos e encantos pueris, que muitas e distantes infâncias embalaram ao som da cantilena formosa de suas águas e do tilintar de seus outrora incontáveis monjolos.
É...
Por vezes, não há nada que a ação do tempo e do homem não consiga destruir.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
Para me dedicar a revisão de meu próximo livro peço vênia aos meus queridos leitores para diminuir a freqüência de minhas crônicas até finaliza-lo.
Obrigado
Um grande abraço, brejeiros.




domingo, 21 de novembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IX – MULHER BREJEIRA FINAL

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IX – MULHER BREJEIRA FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Voz baixa, falar pausado como quase todo mineiro, olhar faceiro e discreto. São alguns dos muitos traços que personificam e eternizam a beleza da mulher brejeira.
Maria Quitéria Rodrigues, sobre quem me referia na crônica anterior, traduzia perfeitamente todos estes atributos e virtudes.
Duas semanas após nosso primeiro e desastrado encontro, fui até a casa de sua tia Luiza para me despedir, pois estava de viagem para São Paulo, onde fixaria residência.
- Bom dia, Quitéria. Como vai?
- Bom dia, Noquinho. Tudo bem! E você, como está?
Percebi naquele momento que algo havia mudado, pois ao contrário da vez anterior, já não me chamava mais pelo apelido de “sapo”.
- Pois é, Quitéria. Passei por aqui somente para me despedir de você e de sua tia Luiza. Estou de mudança para São Paulo, aonde pretendo trabalhar continuar os meus estudos. Por aqui as coisas andam muito difíceis!
- E com quem é que você vai, Noquinho? Não me consta que sua família esteja de saída do Brejo. Você sabe, Cidade pequena, todos se conhecem. Todos sabem tudo da vida de todos.
- É verdade, Quitéria!
- Estou partindo sozinho em busca de meu destino. Jamais deixaria o brejo, mas todos sabemos que há momentos que temos que tomar certas decisões na vida até mesmo quando elas no momento nos são doloridas. Se por um lado, não gostaria de sair do brejo, por outro tenho que admitir não ver aqui grandes perspectivas para o futuro que sonhei para mim. São estes alguns dos motivos que me levaram a esta triste decisão.
- Uai, Noquinho. Qual é o tamanho dessas suas perspectivas para que não caibam aqui no Brejo? Veja: Há bem pouco tempo morávamos lá em São Geraldo, pequeno lugarejo, onde para nós o brejo era quase que inatingível, devido aos seus encantos e “grandes dimensões geográficas”. Pouquíssimo tempo depois de para cá vir, você me diz que aqui é pequeno para os seus sonhos? Quais são eles? Diga ai!
- Na verdade, querida Quitéria, não tenho grandes ambições na vida. O que eu quero é poder proporcionar uma vida melhor aos que me rodeiam. O cabo da enxada por aqui, já não dá mais camisa para ninguém.
- E lá em São Paulo, o que é que você vai fazer? Você não está pensando que vai chegar lá e juntar dinheiro com vassoura. As coisas estão difíceis em todos os lugares, Noquinho. Duvido muito que lá seja diferente daqui!
- Com toda certeza, disse-lhe eu-, mas por mais difícil que seja lá, acredito que estará melhor que por aqui.
- Veja como são as coisas do coração, Noquinho: Depois de nossa ultima conversa, parei e meditei tanto e ai cheguei a conclusão que deveria, sim, existir um algo mais entre a gente. Preparava-me para lhe falar isso, quando agora você me vem com esta noticia de viajar. É ou não é coisa do destino? Não tem jeito mesmo!
- Uai, que grande peso teria isso? Seria até mesmo para mim uma motivação a mais para seguir lutando, o saber que aqui há alguém a esperar.
- É, disse-me, Quitéria: você sabe que por aqui as coisas não são bem assim. Não tenho porque lhe esperar, pois ninguém sabe quando irá voltar. De repente chega lá, se engraça com uma Paulista e aí, adeus, Quitéria.
- Não seria tão volúvel assim. Mas pensando bem, o melhor mesmo para que ninguém saia machucado e conservar as boas amizades que sempre existiram entre nós e nossas famílias, é deixar as coisas como estão para vermos como é que ficam.
- Sendo assim, até mais ver, Quitéria!
- Até mais ver, Noquinho. Que Deus te acompanhe, “meu lindo”!
- Amém!
- Meu lindo? O que! Ouvi bem?
Não. Convencido estava o “eu franzino”, o “eu pobre”, o “eu matuto, sem instrução”, o “eu limitado a mais extrema insignificância do ser”, e que jamais “bala teria na agulha suficiente para derrubar aquele tremendo avião de beleza e formosura”. Será?
Pobre mente humana, era a minha que se atinha a coisas tão fúteis e banais da materialidade do ser, que não conseguia enxergar ali as grandes potencialidades das quais somos todos nós dotados e que as coisas e as pessoas não se medem com a régua do coração, cujas escalas, são infinitamente incomensuráveis.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.










sábado, 13 de novembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VIII – MULHER BREJEIRA

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VIII – MULHER BREJEIRA

Enoque Alves Rodrigues

É muito difícil ou quase impossível, até mesmo ao melhor dos poetas, definir o quão lindas são as mulheres brejeiras. Rosto redondo, pele morena aveludada, olhar firme e faceiro, boca carnuda, sorriso franco e aberto e o mais importante, extremamente prendadas.
Pois é, Maria Quitéria Rodrigues, não, não era minha parenta, conseguia ser tudo isso e um pouco mais. Traquinas e sapeca desde a infância lá em São Geraldo, no município de Francisco Sá, onde estudava comigo no Grupo Escolar. Começava ali o meu “calvário” nas mãos dessa deusa.
Pequenos mirrados e ainda cheirando a leite, comecei a receber dela, aquela que seria uma série interminável de bilhetinhos: “Você é o meu príncipe encantado”. “Você quer namorar comigo?”. Foi assim durante toda a nossa infância. Eu me olhava no espelho e não via nada além do menino feio que era: raquítico, queimado pelo sol escaldante das gerais e que ainda por cima tinha o apelido de “sapo”. Todos os meninos e meninas, menos ela, me chamavam de “sapo”.
Muito tempo depois, já adolescentes no brejo para onde ela se mudou primeiro para concluir os estudos, encontramo-nos. Nem sombra daquela menininha feia e desdentada de outrora. Ao contrário, tornara-se uma autêntica “mulher brejeira”. Esbelta, corpo escultural. Chega! Já tentei definir a mulher brejeira no intróito desta missiva e não consegui.
Pensei comigo: puxa vida, a Maria Quitéria bonita desse jeito não vai me dar atenção. Vai fingir que não me conhece ou que jamais antes vira na vida esse matuto. Ledo engano: Em nada havia mudado. Ao contrário. Ao ver-me, abriu os braços e aquele eternamente inconfundível sorriso da infância, partindo em minha direção proferindo estas palavras:
- “Sapo do Céu. O que você está fazendo aqui no brejo, menino? Você veio estudar? Sua família veio com você? Sabe, “sapo”, eu jamais consegui te esquecer!
- Me recordo como hoje de nossa infância em São Geraldo: lembro de nossa escola, de nossa turma, de nossas brincadeiras durante os recreios, dos piqueniques, das fogueiras de São João, dos fogos de artifícios. E o nosso Natal, “Sapo”, como era lindo! E aqueles biscoitos de polvilho que sua mãe fazia e mandava você levar lá em casa, lembra?
- Sim, lembro-me, perfeitamente!
- Olha, “sapo”, a conversa está muito boa mais eu tenho que ir. Estou estudando para as provas finais e desejo muito passar de ano para seguir meus estudos, pois pretendo ser advogada.
- Que bom, Quitéria, creia-me imensamente feliz por tê-la encontrado depois de tanto tempo. Principalmente por ver o quanto você está bonita e por saber que continua estudando para progredir na vida!
- Obrigada, “sapo”, mas eu também vejo que você melhorou muito... Cresceu. Ganhou corpo...Também está estudando. Fico feliz por você, “sapo”, sinceridade!!!
- Ótimo! E quando poderei voltar a vê-la?
- Qualquer dia desses, “sapo”. É só você passar lá em casa, na Rua Montes Claros, que a gente proseia mais como nos velhos tempos. Estou morando com a tia Luiza.
- Bem, “sapo”, agora eu tenho que ir mesmo... Até mais vê!!!
- Quitéria...
- Fala aí, “sapo”!
- Você se recorda que me chamava de seu príncipe encantado em sua infância e que você era a única menina que não me chamava pelo apelido?
- Me recordo, perfeitamente. Afinal não faz tanto tempo assim!
- Uai, e porque agora você só me chama de sapo ao invés de utilizar dos mesmos adjetivos da infância ou caso os tenha esquecido, ao menos pelo diminutivo de meu nome “Noquinho” como todos me tratam hoje?
- É que a vida passa, “sapo” e as coisas mudam! Quando éramos crianças e eu lhe via como um príncipe encantado, você não correspondeu. Me ignorou. Se você tivesse cultivado a ingênua pureza daqueles meus sentimentos, quase certo seria que eles tivessem se transformado no algo mais que você agora, sem nenhuma chance, deseja. No entanto, como você, quando devias, não os correspondeu, o meu encanto virou desencanto... E o meu príncipe encantado virou o sapo que você sempre foi...
- Sendo assim, Quitéria, estou no “brejo”. No lugar certo... Me atirarei em uma dessas muitas lagoas...
- Inté mais vê, Quitéria...
Lencinho branco acenando...
- Vai com Deus, “Sapo”
É, por vezes não se deve desperdiçar as oportunidades por mais simples que pareçam ser. Elas se assemelham a um cavalo arriado: se você não se jogar na hora certa, bate com os fundilhos no chão.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.







sábado, 6 de novembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VII – UM BREJEIRO EM APUROS

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VII – UM BREJEIRO EM APUROS

Enoque Alves Rodrigues

As coisas e as pessoas estão em constantes modificações. Assim sendo, o que não está melhorando, está piorando. A vida não é estática, é dinâmica. Dizia já naqueles longínquos tempos um grande personagem cuja historia se fundia com a de Francisco Sá, o velho Brejo das Almas.
No entanto, apesar de seu otimismo, mesmo confiante de que dias melhores viriam cobrir de êxito sua pobre vida, o que se via, na prática cotidiana era o cumprimento do último jargão de tão importante frase de efeito: sua vida piorava a cada dia. Os negócios no “Estica o Braço” não iam bem. De há muito que a freguesia, já escassa, fugira de seu estabelecimento. As coisas no velho Brejo das Almas efetivamente não estavam boas. As “marés dos mares de minas”, ou melhor, do lindo e caudaloso rio Gorutuba não estavam mesmo para peixe. A seca grassava grande parte do Brasil e o sertão das gerais, nesse caso, é o que mais sofria.
O que fazer? Como conseguir condições mínimas para dotar a si e a sua família brejeira do básico necessário para que não morressem de fome? Aonde é que foram parar os amigos? Os fregueses a quem, por diversas vezes vendera várias doses de Maria Rita na base do fiado?
Não. Não era possível que ninguém viesse a seu socorro! E lamentava: como é que pode? Sai da lavoura há muitos anos exatamente para não passar por isso. Montei esse bar com tanto sacrifício e agora, sem mais nem menos passo por esse eterno e interminável perrengue? Não, não me conformo. Parece até que é coisa mandada. Outros bares estão progredindo e aos poucos se mantendo. Mas o meu, não. É este marasmo. Ouve-se até mesmo a respiração das moscas a fazerem-me companhia.
Neuzão. Esse era seu nome, lamentava de um lado para outro no exíguo espaço interior que restava de seu Bar. Sim, o bar de Neuzão praticamente não possuía interiores. Lá só cabia ele próprio que atendia os fregueses, nos áureos tempos das vacas gordas, do lado de fora. Ou seja, o brejeiro sedento de uma caninha para afogar as mágoas, do lado de fora fazia seu pedido a Neuzão que lá dentro pegava a “mardita”, colocava no copo e aos sussurros pedia ao solicitante que esticasse o braço para receber o copo com a dita cuja de suas mãos. Era mais ou menos assim: O freguês chegava, subia em uma pequena saliência alta a guisa de soleira, punha a cabeça no nível da abertura da janela e sem mesmo conseguir ver a cara de Neuzão ia logo dizendo:
- Oh, Neuzão. Você está ai?
Lá do fundo, em meio a densa escuridão do ambiente, Neuzão respondia:
- “Tô, sim! Pode falá qui eu te escuito!”
- O que é que ocê deseja?
Bem, ouvindo dessa forma, qualquer vivente seria induzido a pensar que naquele boteco desprovido até mesmo de um interior, tivesse outras iguarias que não fosse somente cachaça.
- Desce ai, para seu amigo Firmino aqui que vos fala, aquela água que passarinho não bebe. Ou melhor, aquela cana que não brota mais.
- Ocê quer com jibóia ou sem jibóia? Perguntava Neuzão.
- Neuzão... Você está doido, homem? Esqueceu-se que eu sou solteiro? Cana com jibóia é só para homem casado. Homem que tem mulher. E eu sou solteiro de nascença!
- “Ah, ta bom, Firmino, dizia Neuzão, procê tem que sê mesmo cana sem jibóia porque senão ocê vai fazê bestera por ai. Vai acabá saindo daqui direto para a casa da dona...”
Enquanto falava, carregava o copo que uma vez cheio e pronto para a degustação miserável dizia para o interlocutor:
- Pronto, taqui. “Estica o Braço”.
Sedento, esticava o braço e de uma só vez solvia aquele liquido destilado em algum dos muitos alambiques da região do Brejo das Almas e dessa maneira, por alguns instantes sentia-se o pobre bebum transportado ao Paraíso por lindas carruagens de fogo, esquecendo-se, ainda que por pouco tempo ou enquanto durasse o efeito do álcool no debilitado organismo, da triste, cruel e despropositada vida sem nenhuma perspectiva de sucesso aparente, ainda que a longo prazo.
É...
Naqueles tempos bicudos o Brejo não era fácil.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.




 
 
 
 
 


sábado, 30 de outubro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VI – ZEZIM TOCADOR E VAZAMUNDO

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ VI – ZEZIM TOCADOR E VAZAMUNDO


Enoque Alves Rodrigues

Braços curtos, baixinho e barrigudo. Com dois reluzentes dentes de ouro na arcada superior da boca. Camisa estampada sempre desabotoada, deixava à mostra uma musculatura peitoral má nutrida e bastante judiada pelo passar dos anos implacáveis. Calça arranca toco amarrada na cintura, sem cinto. Sandálias franciscanas aos pés e, na cabeça, um velho e surrado chapéu de couro com três estrelas sendo a maior delas situada ao meio, no estilo Lampião. Lenço vermelho sujo no pescoço. Sanfona de oito baixos colada no peito como se com ele tivesse nascido. Cão preto de olhar tristonho e distante, cujo nome, “vazamundo”, fazia jus aquele seu olhar para alguma imensidão desconhecida do planeta. Pronto: estava, ali, na frente de tudo e de todos, formado o mais perfeito trio que naqueles tempos era o principal, ou melhor, o único responsável pela alegria que contagiava as tardes, noites e manhãs Brejeiras. Sim, Francisco Sá, Minas Gerais, Brasil, ou, o “Velho Brejo de todas as Almas”, deitava, acordava e levantava ao som daquela sanfona. Não é preciso que o leitor tenha muita idade para se lembrar do que estou narrando, afinal, refiro-me a década de 1970.
Zezim era exímio tocador. Sanfoneiro dos bons, cujo repertório vasto e eclético o permitia passear por todos os ritmos. Ia do Rei do Baião, Luiz Gonzaga ao Rei do Iê, iê, Iê, Roberto Carlos, em frações de segundos. Bastava apenas que alguém de entre o respeitoso publico solicitasse que em ato continuo e simultâneo, os dedos rústicos e calejados por outras lides, mais sempre ágeis, daquele autentico brejeiro, em sintonia perfeita com o limitado teclado, dedilhava-o em uma maestria inimaginável aos olhos humanos, ainda mais quando se sabe que nenhuma instrução tivera antes aquele homenzinho. É muito simples para os céticos que atribuem todo e qualquer fato anormal as coincidências naturais, ignorarem que tamanha aptidão não tenha sido dada aquele matuto pelas mãos da Divina Providência. Mas certo está que é desnecessário ter fé elevada para não duvidar disso: Zezim Tocador foi designado pelo lado de lá, para vir ao mundo alegrar a gente brejeira. Os “Caras lá de Cima” quando lhe enviaram  para cá, sabiam muito bem o que estavam fazendo. Que não havia no Orbe Terrestre localidade mais triste e melancólica e tão carente de um pouco de alegria ou bagunça mesmo, que o velho Brejo das Almas. Aí mandaram Zezim e de quebra o seu cão vazamundo que contracenava com o sanfoneiro, pois enquanto ele dedilhava a velha sanfona, vazamundo, independente da musica que seu dono estava a tocar, punha-se a latir sem parar, como se estivesse o acompanhando em cânticos.
Zezim, ao contrário do que todos imaginavam, não possuía somente uma sanfona. Ele tinha várias. Dizia que um homem prevenido vale por dois, por isso mantinha outras sanfonas para a eventualidade de substituir alguma que apresentasse problemas, afim de não deixar a gente brejeira sem um “sonzinho”. Mas convenhamos, gente boa, divertíamo-nos somente até certo ponto. Porque dia e noite ouvindo aquelas melodias muitas vezes acompanhadas, ao longe, pelo cantar triste das cigarras, transformavam-se, pelo cansaço enfadonho da oitiva permanente das cantilenas, tudo isso, no mais tenebroso martírio. Eram tristes, bem verdade, as tardes, noites e manhãs brejeiras. Precisavam de alegria. Mas “tudo de mais é sobra, uai” assim falamos nós mineiros.
Bem, eclético na musica, eclético na vida. Pois é, Zezim desenvolvia outras atividades que nada tinham a ver com o mundo de Ludwig van Beethoven. Preparava nas horas vagas garrafadas de raízes das quais era ele doutor no conhecimento e as doava para a gente carente de um Brejo das Almas sem farmácias. Ele tinha também “algum negócio” com o invisível, pois era muito solicitado a visitar as fazendas e sítios da região com a única missão de “expulsar cobras” que disseminavam pavor e prejuízos às manadas nas matas e pastagens dos fazendeiros de então.
Pequeno no tamanho, grande na vida. Seria necessário muito mais tempo para que eu pudesse descrever o que foi Zezim Tocador e seu cão Vazamundo para Francisco Sá, naqueles já longínquos tempos.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.
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sábado, 23 de outubro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ V – GERALDINO FOGUETEIRO

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ V – GERALDINO FOGUETEIRO
Enoque Alves Rodrigues

Ele vivia num velho casarão bem no inicio de onde hoje é a Rua João Catulino Andrade, em pleno centro. Já não sabia mais o que fazer. Até ali, tudo dera errado em sua vida. O pai, Antonio Carlos havia abandonado sua mãe quando ele ainda era menino. Sequer conseguia lembrar-lhes à feição. A mãe, Maria Lavadeira, sustentou-o, enquanto pode, com o oficio que galhardamente levava no sobrenome. Várias famílias razoavelmente abastadas do antigo Brejo das Almas davam-lhe suas vestimentas de época para serem lavadas. Trouxas e mais trouxas eram batidas com sabão em forma de bola, feito do mais puro sebo de boi, sobre uma já lisa e desgastada pedra, colocada estrategicamente pela mãe natureza nas barrancas do rio São Domingos que nasce na serra do Catuni. Geraldino, sim, este era o seu nome, pequenino a acompanhava nesta lide. Enquanto a mãe Maria batia as roupas sempre a cantarolar alguma cantiga nativa do velho Brejo, ele postava-se em curta distância da mãe com uma pequena vara com um mínimo anzol a ponta de uma linha, onde pescava algumas piabas que ali mesmo eram assadas sobre uma pequena pedra aquecida com fogo. Lá mesmo, ou seja, na beirada do rio, as consumiam.
Muitos anos depois, Maria Lavadeira, depois de uma grande história de vida e amor ao Brejo, partiu desta vida deixando nosso Geraldino só. Não tinha nenhuma profissão que pudesse suprir sua subsistência. Foi ai que o amigo Caetano Dias, cuja família hoje é tradicionalíssima do lugar, ofereceu-lhe aquilo que se poderia chamar de a “grande chance”: Fabricar foguetes. O Brejo das Almas, hoje ou desde 1938, Francisco Sá, sempre foi muito festeiro. Deve isso a várias comemorações de uma infinidade de santos que o apadrinham.
Bem, como vinha dizendo, Geraldino vivia à beira do desespero. Não obstante ter obtido algum sucesso no fabrico de fogos, quando ainda jovem, agora estava velho e quase acabado e, o pior, com a nítida sensação de que passara toda a vida trabalhando sem resultado. Não conseguira fazer sequer um pequenino pé de meia. Lamentava o fato de não ter se casado e a ausência de filhos. Puxa vida, dizia, se pelo menos eu tivesse tido filhos quem sabe hoje algum deles pudesse me sustentar. Não agüento mais trabalhar. O corpo só pede descanso. Mas é ai que está o meu problema: cobra que não anda não engole sapo... mas como é que eu vou andar se sequer consigo levantar desta maldita cama?
Na manhã seguinte, como que num passe de mágica, levantou-se mais que disposto. Dirigiu-se até a velha fabriqueta de foguetes e em posição de extrema reverência pediu a quem estivesse “lá do outro lado” que o ajudasse a se erguer daquela vidinha miserável e sem graça. No afã de livrar-se de seu pesado fardo, ou quiçá na empolgação do momento, acabou prometendo o que talvez mesmo que vivesse uns trezentos anos jamais poderia cumprir: Caso conseguisse sucesso em sua trajetória de fabricante de fogos e se aquelas forças lhe devolvessem a sua saúde, disposição e jovialidade para que seguisse trabalhando, subiria, de joelhos, o morro do mocó e, de lá, em pleno cume, soltaria uma rajada de fogos numa manhã primaveril saudando todos os santos do mês de setembro.
Incrivelmente, passou a progredir. Encomendas eram feitas dos mais longínquos confins das Alterosas. Era lindo de se ver o vai e vem dos carros de bois descendo a serra com seus ressequidos cocões (quatro paus verticais que prendem o eixo dos carros de bois) a rangerem-se numa cantilena piedosa e ao mesmo tempo alegre em direção a agora grande e progressista “Fábrica Brejeira de Fogos de Artifícios”. Tropas de burros varavam o sertão durante a noite e na manhã seguinte já estavam pastando em frente a fábrica de Geraldino Fogueteiro, na cansativa espera do carregamento, para retornarem aos seus locais de origem.
“O homem cresceu. O homem mudou”, já dizia o poeta. Agora, rico, sequer pairava-lhe à mente quaisquer resquícios do que antes, no desespero prometera, sabe-se lá, para quem.
Pois bem, inesperadamente, do mesmo jeito que veio o sucesso, sem que nenhum fato relevante o justificasse, numa tarde triste e chuvosa, daquelas que antanho acometiam o velho Brejo das Almas, Geraldino, sem mais nem menos, como que por encanto, voou pelos ares.
Na chamada oral feita pelo professor Neco Surdo no Grupo Escolar onde Geraldino, já velho, estudava, na aula do dia seguinte travou-se o curioso diálogo narrado pelo grande e inimitável historiador Brejeiro Geraldo Tito Silveira:
- “Geraldino Fogueteiro...
- “Ele morreu queimado com pólvora, respondeu um espoleta qualquer, seu ex-colega de classe...
É...
Por vezes, dizia Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 16 de outubro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IV – OS VELHOS ENGENHOS DE CANA

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ IV – OS VELHOS ENGENHOS DE CANA

Enoque Alves Rodrigues

Já se vão longe e saudosos os tempos em que havia em quase todos os pequenos sítios localizados no Município de Francisco Sá, Brejo das Almas, assim como em todo o norte das Minas Gerais, os velhos e barulhentos engenhos para moagem de cana de açúcar. Lembro-me, quando criança, que na Fazenda do senhor Liberato, meu avô,  havia um desses engenhos que durante a época da moagem sempre nos meses de Julho e Agosto, funcionava o dia todo, ininterruptamente.
A lide do velho Liberato, com ou sem moagem, se iniciava sempre ás 04:30 da manhã, quando ele levantava de seu velho catre em couro trançado onde repousava com a Dindinha Justina, minha avó, com um Hinário nas mãos, entoando um hino do qual não me recordo o titulo mas que iniciava mais ou menos assim: “vamos trabalhar...vamos trabalhar”. Todos ali, ao ouvirem esta “palavra de ordem”, levantavam-se, um a um, e acompanhavam-no em cânticos, seguindo todos juntos e irmanados, em direção a imensa sala de visitas que ficava na parte da frente do antigo casarão, aonde jazia uma tosca mesa de madeira coberta por fina toalha de linho branco, denominada “o altar da família”, e ali, em perfeita comunhão, punham-se a orar pedindo que as forças do bem os abençoasse para que tivessem um bom dia de trabalho e que não deixassem que nada de ruim lhes acontecesse. O velho Liberato fazia a leitura da Bíblia de maneira aleatória e depois a traduzia com uma fluência de vocabulário inenarrável, principalmente quando se sabe que aquele “velho matuto” jamais antes tivera qualquer contato com as letras. Os encerramentos destas sessões eram quase que sempre feitos por sua filha mais velha, minha tia Nira, com uma linda oração que lamentavelmente este espaço que me é facultado pelo Jornal MontesClaros.com, que publica minhas crônicas, não me permite estender sob pena de me classificar de fazer proselitismo religioso. Uma pena. Sem entrar no mérito mais traçando uma analogia, informo que estas orações de encerramento eram o mesmo que são hoje os DDS´s corporativos, ou seja, os Diálogos Diários de Segurança que são lidos pelos empregados na parte da manhã, antes de iniciarem suas atividades. Discorrem-se, sistematicamente, sobre os cuidados que o trabalhador deve tomar durante o dia. Recomenda enfaticamente o uso dos Equipamentos de Proteção Individual, etc. Enquanto que nos “DDS´s” de minha tia Nira, - lá na Fazenda “Terra Branca” de propriedade de meu avô-, feitos em forma de oração, se implorava apenas e tão somente pela proteção Divina, ao invés do uso de EPI´s (que não existiam por aquelas plagas).
Finalizada a cerimônia, saiam todos em silêncio, de maneira ordeira, numa fila indiana com meu avô a frente, rumo ao engenho onde já os esperavam o pessoal agregado que iria colaborar com a labuta. Ali já estava tudo preparado a espera do velho João Rodrigues para iniciarem as atividades do dia que mais pareciam Obras de Artes ou coisa derivada de algum quadro de impressionismo do Século XIX, que ainda hoje pairam de forma indelével em minha memória:
Quatro montanhas de canas cortadas no dia anterior cercavam o velho engenho já devidamente equipado com três juntas de bois em cangas aos quais fora dada a incumbência de fazer girar as rangedoras e barulhentas moendas no hercúleo esforço de triturarem, enquanto o dia clareava, aquele mudo de “madeiras doces” da família das poaceaes, do gênero saccharum. Ao lado do engenho três cabanas feitas e cobertas inteiramente com bagaços das próprias canas. Lá ficavam posicionados estrategicamente imensos tachos de bronze em fogo alto a queimar-lhes os fundilhos, que recebiam a garapa da cana que era retirada de um tanque depois de ter sido captada através de cochos que ligavam as moendas ao tanque e tinham como função convertê-la em estado sólido transformando-a em rapadura, melado ou puxa a esta ultima se adicionava a cidra ou cascas de laranja o que a tornava um fino doce dos deuses, quase tudo era vendido no Mercado do Brejo das Almas.
Aquele ritual deixava qualquer um encantado. Até mesmo o pessoal envolvido com aquela lide se orgulhava dela. Imaginem isso, na mente de um guri de oito anos. Era o máximo: mesmo pequeno, eu tinha lá minhas funções. Claro que dentro daquela rígida hierarquia as minhas atribuições eram as mais inferiores. Mais eu também era graduado. Quando eu não estava provando o melado para ver o ponto, estava enchendo o saco da “Dindinha” (avó), pedindo para adicionar logo a cidra ao melado para eu iniciar a comilança, ou então, postava-me no topo de  um dos muitos pés de manga e, uma vez  lá de cima, tentava infrutiferamente contar quantos giros aquelas juntas conseguiam dar em volta do engenho. Tonto e frustrado era sempre obrigado a apear dali sem que tivesse realizado meu intento. Já embaixo me ocupava de contar quantas viagens as pessoas conseguiriam fazer com seus bangüês carregados de bagaços de cana. Enquanto isso o guia dos bois com uma vara à mão que jamais era utilizada ia gritando: "Eh, boi... Formoso... Vamo queimado... Só mais um pouquinho... Contente... Vamos... Sobrero, cuidado... Do outro lado, meu avô feliz com a produção, alisando sua linda e cheia barba branca com as duas mãos (ele tinha esse costume), agradecia a Deus comovidamente aquelas dádivas: "Glória a Deus nas Alturas e Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade". Bons tempos, aqueles...
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Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 9 de outubro de 2010

MORREU GASPAR ALBÉRIO EM MONTES CLAROS

MORREU GASPAR ALBÉRIO EM MONTES CLAROS

Enoque Alves Rodrigues

Hoje, excepcionalmente não escreverei sobre Francisco Sá, a Cidade. Discorrerei, sinteticamente, sobre o grande homem que lá nasceu há 85 anos e que agora retorna aos Céus, chamado que fora por Deus em 04/10/10, em Montes Claros.
Trilhou, aqui na terra, todos os seus caminhos pautados sempre pela fé, dedicação ao próximo e, principalmente, por ter deixado a todos os que com ele conviveram lá em Capitão Enéas, exemplos de sinceridade, respeito, cordialidade, afeto e amizade na mais pura e sublime acepção da palavra.
Gaspar Albério, ou “Seu Gaspar”, soube como ninguém construir todos os laços que o uniam as pessoas e a sociedade de Capitão Enéas.
Estabelecido, há muitos anos nesta Cidade no ramo do Comércio, depois de haver se dedicado a várias atividades correlatas, entre elas, a de mascate, onde negociava seus produtos dentro do velho trem da antiga Rede Ferroviária Federal que cortava o norte das Minas Gerais.
Na condição de comerciante na Avenida Burarama, utilizava muito mais esta prerrogativa para conquistar novos amigos, granjear simpatias e consolidar velhas amizades, que para ganhar dinheiro. Todos que ali chegavam, com ou sem dinheiro, levavam o que queriam. Tudo, claro, anotado em sua velha caderneta ou muitas vezes somente na palavra.
-Seu Gaspar, eu gostei muito daquele tecido ali mais tô sem dinheiro hoje. O que é que a gente faz?
-Tem problema não, filhinha. Ocê pode levar que nóis acerta quando você puder. Ta me entendendo? Dito isso, pegava uma velha métrica em madeira, destas de se medir tecidos, e com uma não menos velha tesoura, dava um pequeno corte e zás...de uma só vez rasgava o restante em linha reta.
Enquanto isso entrava outro:
-Seu Gaspar, eu vim aqui para “acertar” aquela continha do mês passado.
-Mais como? Já meu filho?
-Espere um pouquinho, vou atender a filhinha ali. Enquanto isso senta um pouco e vamos proseando.
-Como vai a família? E aquele seu probleminha de saúde. Já resolveu com aquele remédio que você me falou da outra vez? E a porca já deu cria?
Evangélico durante quase toda sua vida, tinha ele o dom da palavra. Colaborava com todos a sua volta. Assumira na Sociedade Eneense posições de destaque que por si abalariam o ego de simples mortais. Jamais se deslumbrou com nada. Cuidava de duas irmãzinhas suas muito velhinhas e fragilizadas pelo decorrer dos anos que agora sentem-se orfãs. Todos os dias, impreterivelmente, ele atravessava a linha do trem e, do outro lado da Cidade ia estar com elas levando-lhes seu carinho fraterno e o conforto da palavra.
Seu maior orgulho: ter criado seus sete filhos todos íntegros apenas e tão somente com os seus exemplos de vida. Circunstancias naturais da vida, ou seja, a busca pela sobrevivência e melhores condições de vida, acabaram por empurrar para longe de seu convívio seus dois únicos filhos homens, restando-lhe próximos somente suas filhas mulheres que, naturalmente supria a falta dos outros, desdobrando-se em mimos e cuidados.
Jamais, em minhas crônicas fiz qualquer referência a este senhor. Entendo que da mesma forma que não devemos pronunciar o nome de Deus em vão, não existe palavra, por mais rico que seja o vocabulário, para qualificar com fidelidade sem o risco da hipérbole ou paixão, seres que a providência divina, de quando em vez, se encarrega de mandar para a terra. Principalmente quando fomos nós, diretamente agraciados com a dádiva de tê-los como parentes próximos.
Sim. Gaspar Albério Rodrigues, que faleceu em Montes Claros e que vivia em Capitão Enéas e que agora descansa em paz ao lado de Deus, era o meu querido pai. Que Deus o tenha em sua Santa Glória.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.




sábado, 2 de outubro de 2010

ISTO É FRANCISCO SÁ - HIDROGRAFIA - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Nascendo na Serra do Catuni, o Rio São Domingos passa pela Cidade de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais e segue seu curso em direção ao Rio Verde Grande, do qual é um dos muitos tributários. É relativamente pobre a rede hidrográfica do Município, já que vários dos seus córregos secam após a retirada das chuvas.
Quem demanda o lado norte, encontra o córrego do Carrapato e, em seguida, o Sitio Novo, o Ribeirão de Cana Brava, o Córrego Pau Preto, o do Brejão, o Mamonas, o Traçadal e ainda o Rio Quem Quem.
Do lado Sul, deparam-se com o Rio Boa Vista, o Vaca Brava, o Córrego dos Patos, o Rio Caititu, o Rio da Prata e o Córrego Rico.
Ainda ao Norte, em demanda ao povoado do Catuni, o Rio Gorutuba, que em vários pontos, forma belíssimas praias de areia clara.
O Rio Verde Grande é o marco divisório dos Municípios de Francisco Sá e Montes Claros.
Dentro do território do Município de Francisco Sá há varias lagoas. Á margem da rodagem Montes Claros – Salinas, depois do Rio Verde e a direita de quem parte de Francisco Sá, fica a bonita lagoa da Barra, na Fazenda de mesmo nome. O antigo proprietário Dr. Felix Pimenta de Carvalho, construiu a margem da lagoa um moderno Clube Campestre, no qual a Sociedade de Montes Claros bem como a de Francisco Sá, encontram um ponto magnífico para as suas atrações domingueiras.
Ao Nascente, na belíssima Cidade de Francisco Sá já quase inteiramente drenada, fica a histórica Lagoa das Pedras, ás margens da qual o Bandeirante Antonio Gonçalves Figueira, juntamente com os seus companheiros, acampou num dia de finados, conforme já escrevi, erguendo numa elevação ao lado o cruzeiro, do qual tiraria o primeiro topônimo do lugar, que fora o de “Cruz das Almas das Caatingas do Rio Verde”.
Os que conhecem esta lagoa no seu estado atual, não formam a idéia do quanto já fora bela. Quem teve o privilegio de conhecê-la em seus tempos de gloria lembra-se de que ali havia um lindo espelho d’agua. Praticava-se ali grandes e prodigiosas pescarias aonde se pescava arrobas e mais arrobas de peixes de várias espécies. Existisse hoje como antes, certamente daria um lindo lago navegável, onde a mocidade poderia esportivamente se divertir.
Distando três léguas do Centro de minha Cidade de Francisco Sá, Brejo das Almas, e ao poente, fica a lagoa do Tabual, no povoado de mesmo nome. Á margem, do Rio Caititu existem varias lagoas, pelos lados da Fazenda da Camarinhas, e nelas, todos os anos, eram praticadas pescarias.
Para as bandas do Córrego do Carrapato, fica a Lagoa dos Mouras ou Lagoa Nova.
Com a formação do Município de Janaúba, bem como de Capitão Enéas, desmembrados de Francisco Sá, várias lagoas passaram a pertencer a estes Municípios, por terem ficado nos territórios desmembrados. Uma delas é a Lagoa Grande, no Município de Janaúba.
Um grande abraço, amigos estudantes. Creio que aqui prestei minha modesta contribuição e espero ter atendido vossos anseios.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.






sábado, 25 de setembro de 2010

ISTO É FRANCISCO SÁ III - POSIÇÃO GEOGRÁFICA

ISTO É FRANCISCO SÁ III - POSIÇÃO GEOGRÁFICA

Enoque Alves Rodrigues

O Município de Francisco Sá, antigo Brejo das Almas, localiza-se na Bacia do Rio São Francisco, ficando o seu atual território no Vale Médio do Rio Verde Grande, tendo atualmente os seguintes limites: ao Norte limita-se com o Município de Grão Mogol; ao Sul, com os Municípios de Montes Claros e Capitão Enéas, que se chamou primeiramente Burarama; a Leste com o Município de Juramento e a Oeste com o Município de Janaúba.
Dista da Capital das Alterosas, Belo Horizonte, ou “Belzonte” como nós Mineiros autênticos carinhosamente a chamamos, 480 quilômetros. Possui área territorial de 2.749.393 quilômetros quadrados e sua população atual segundo dados estatísticos do IBGE em 2009, gira em torno de 25.994 habitantes, divididos em partes iguais entre homens e mulheres o que dá 8,2 habitantes por metro quadrado.
Francisco Sá, que outrora fora um grande Município em extensão territorial ao ser formado, por mais de uma vez sofreu mutilações no seu organismo. Dois grandes cortes lhes foram praticados com desmembramentos de partes do seu todo territorial, quando das criações dos Minicipios de Janaúba e Capitão Enéas. Mesmo assim, mutilado em partes importantes, refez-se o seu organismo em tempo rápido, e a sua caminhada rumo ao progresso não sofreu solução de continuidade. E, assim, vem cumprindo as suas metas em demanda de sua destinação histórica.
Município de vida própria, habitado por um povo laborioso, pacato de hábitos simples e hospitaleiro, o que muito dignifica as minhas origens, e o meu devotamento pelo Brejo, está a sua Sede a se transformar numa Cidade moderna e confortável.
O Município de Francisco Sá, “beldade do norte de Minas Gerais”, fica situado a 667 metros de altitude, tendo como coordenadas geográficas, 16º27’00” de altitude Sul e 43º28’00” de longitude W Gr. Em linha reta fica distante da Capital 386 quilômetros, rumo NNE.
Semana que vem falarei da Hidrografia de Francisco Sá, ou seja, sobre os seus rios.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

 

sábado, 18 de setembro de 2010

ISTO É FRANCISCO SÁ II - OROGRAFIA - Serra do Catuni

Enoque Alves Rodrigues

Atendendo a vários e-mails que tenho recebido, -o que muito me honra-, de estudantes em fase preparatória de trabalhos escolares, principalmente da mui conceituada Universidade Estadual de Montes Claros, a Unimontes, direcionei minha crônica do ultimo final de semana a fauna e a flora existentes no município de Francisco Sá e hoje, dando seqüência a esta série escreverei sobre a orografia e na próxima semana sobre a posição geográfica, deste meu amado município.
OROGRAFIA – Serra do Catuni:
Sendo o sistema orográfico de Francisco Sá padronizado pelo da nossa belíssima Serra do Catuni, dou aqui a sua descrição, copiada do Relatório-Monografia do Dr. Artur Jardim, quando da sua prestação de contas ao deixar a prefeitura do município de Brejo das Almas, após haver concluído com denodo, transparência e galhardia a mais perfeita gestão que Francisco Sá já teve. Aliás, hoje, o município ressente de administradores do naipe que os anteriores.
Diz ele: “A Serra do Catuni é um planalto que desce bruscamente, na vertente ocidental, que é a do Verde Grande, de 900 – 1000 metros de altitude média, 700 – 650 na base da elevação e a menos, já na baixada. Visto daí, seu corte do firmamento é dado por linhas retas niveladas em redentes como uma amplíssima cremalheira. Esse perfil inesperado é que a torna singular para o visitante habituado ao tumultuário levantamento de cômoros, píncaros, e agulhas das cordilheiras litorâneas e das regiões sul-central.
Quem segue pela estrada de Salinas, e galga a encosta, tem no cimo a surpresa de um tabuleiro que se desdobra para o nascente, em suas ondulações, e onde farfalham as elegantes palmeiras de Catolé, batidas pelo vento constante e vivificador do Nordeste... mas, também anunciador da seca.
Os contrafortes desta serrania nunca se estendem a mais de uma a duas léguas de seu flanco, para o poente, e não tem ramificações muito longas no sentido leste-oeste.
As maiores são as de Vaca Brava, Campo Alegre e Barra. Estes contrafortes parecem partir de um centro de impulsão situado na profundidade da terra, sob a massa dos Gerais, rumo aproximado ESE, originando as elevações de Sete Passagens, Pilatos, Morro do Trigo e a serie de montes das cabeceiras do Boa Vista e outros.
Estas elevações secundárias alcançam uma profundidade para o poente de 18 a 30 quilômetros, em altitudes crescentes.
Pela maior parte constituem-se de argila e calcários em lajedos, chistos, cascalhos rolados e arestosos, bancos normais de quartzo leitoso; e, bombeando cada vez mais o dorso, separando os “baixos”, em que correm rios temporários, transformam-se depois em chapadas e tabuleiros cobertos de “carrascos” ou de “catandubas”, como diz o nativo, e até de caatingas mais férteis que sobem das baixas.
Os contrafortes de Barra, Brejo, Carrapato, Sitio Novo, Masseira, Cana Brava, Santo André, de SW para NE, são ramificações que não se estendem muito.
Esse caráter pode ser dado a todos os serros que se erguem esparsos a maior ou menor distancia, dentro do vale, e cujo maior lance é no sentido aproximado da corrente do Verde Grande, OSO para NNE.
A maioria desses serros termina com a Serra do Catuni, em linhas de cumeadas niveladas e extensas, ficando o seu perfil no fundo vastíssimo da paisagem, descortinados das elevações, como uma sucessão infinita de planaltos a cavaleiro dos vales.
Um grande abraço, queridos estudantes. Sucesso e obrigado pelos e-mails. Contem comigo!
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 11 de setembro de 2010

ISTO É FRANCISCO SÁ I - FAUNA E FLORA

Enoque Alves Rodrigues

Atendendo a vários e-mails que tenho recebido, -o que muito me honra-, de estudantes em fase preparatória de trabalhos escolares, principalmente da mui conceituada Universidade Estadual de Montes Claros, a Unimontes, direcionarei minha crônica de hoje a Fauna e a Flora, existentes no norte de Minas Gerais, ou precisamente em meu município, Francisco Sá.
FAUNA:
Os animais domésticos do município em sua maioria se constituem das espécies mais comuns em varias regiões do País.
Sobressaem, entretanto, os galináceos e os palmípedes. Quanto a aves e pássaros selvagens, há alguns característicos da região, canoros e de belas plumagens. Dentre eles enumeramos o sofrê, o currixo, o canarinho amarelo, o pintassilgo, a patativa, o bicudo, o curió, o pássaro preto de três espécies, o cardeal e a brabeza.
Há também as pombinhas verdadeiras, a juriti, a inhambu, a zabelê, o sabiá, o tico-tico, o bem-te-vi, a codorna, o quem-quem, os anuns pretos e brancos, as rolinhas pedrês e parda, o João congo, o João de barro, e muitos outros. Com relação as aves de rapina, existem varias espécies de gaviões de penacho e o carcará.
Em se tratando dos animais selvagens temos no município de Francisco Sá, a suçuarana, a lombo-preto, e em algumas regiões o tigre, a anta, os gatos maracajá e marisco, a raposa, o caititu, o queixada, os tamanduás, os tatus, a paca, os veados, os coelhos, as cutias, o guaxo, os preás e a jaratataca.
Quanto a serpentes, a maior mesmo é a jibóia, a caninana, a jararacuçu, a cipó, a cascavel, a coral, a jararaca e outras mais.
No tocante as variedades de peixes são muitas, a começar pelo grande surubi do meu querido rio verde grande, o doirado, as curumatás, as traíras, o piau e, ainda no rio verde e várias lagoas, os grandes jacarés, as ferozes piranhas, os mandis, e mais os batráquios e quelônios.
FLORA:
Quanto a flora existente no município de Francisco Sá, Brejo das Almas, ela é quase toda constituída das seguintes  classificações:
CAMPOS – Limpos, Cerrados e Gerais.
CATANDUVAS – Altas e Baixas.
CAATINGAS – Altas, de vazantes, baixas e médias.
Nas Catanduvas encontram-se as seguintes madeiras:
Pau de óleo, garapa, potumujú, ipê, catinga de porco, e outras mais.
Nos cerrados o pau terra, o vinhático, a cagaiteira, a samambaia, o tingui, a caraíba, o angico e outros.
Observe-se que a vegetação nossa conhecida como caatinga difere inteiramente da que é assim qualificada por Euclydes da Cunha no seu monumental livro Os Sertões, que conheci ainda menino nos sertões da Bahia. A Caatinga do norte das Minas Gerais ou precisamente do município de Francisco Sá sobre o qual escrevo, é uma mata muito densa, constituída em sua maioria de madeira de lei, como o cedro, a aroeira, o pau preto, o tamboril, o angico, o candeio, o pereira, o jacarandá e outra infinidade utilizados em construção.
Já as Caatingas da Bahia são constituídas de vegetação rala, rasteira, raquítica, etc.
Um grande abraço, queridos estudantes. Sucesso e obrigado pelos e-mails. Contem comigo!
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.




domingo, 5 de setembro de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ III - DEMÓSTENES VENTURA

Enoque Alves Rodrigues

Ao contrário de seu sobrenome, Demóstenes Ventura andava mergulhado numa tremenda onda de azar. Ele residia ali na Praça Joaninha Pena, Centro de Francisco Sá, nosso querido Brejo das Almas. Trabalhava lá pelos lados do Catuni, onde era vaqueiro além de colaborar com as plantações de milho e alho. Sua esposa se chamava Ana, filha do velho Valdomiro Papudo, um dos contadores de causos da Francisco Sá de antanho. Tinham seis filhos, todos menores de dez anos o que indica ter o casal começado cedo sua longa prole.
Sem maiores delongas, há que se ressaltar que a sorte realmente não lhe era companheira. Jamais antes houvera lhe dado sequer um amarelo sorriso. Fugia dele enquanto ele a perseguia implacavelmente.
Se plantasse, por mais que fosse a terra fértil, não colhia. Se jogasse na loteria, ainda que comprasse todas as combinações, não ganhava. Era o azar em forma de gente.
Não, aquilo não poderia continuar assim. Ele teria que dar um jeito naquela sua vidinha monótona, sem graça e sem sorte! Continuaria lutando no sentido de reverter essas mandingas.
Naqueles tempos, a única loteria que existia por aquelas bandas do norte das alterosas, era somente a centenária Loteria Federal do Brasil, que era vendida por cambistas no lombo de cavalos, após percorrerem várias léguas sertão á dentro ou, principalmente, dentro dos velhos trens da antiga EFCB ou RFFSA que seguiam de Montes Claros a Monte Azul, uma das ultimas paradas para se entrar na Bahia. Havia um cambista que era muito conhecido no Brejo, de nome Gasparino, que me parece era ele o responsável por “semear a sorte grande” nas regiçoes do Brejo, Grão-Mogol, Salinas, Taiobeiras, São Geraldo, etc.
Foi ai que Ana, esposa de Demóstenes teve uma idéia:
-“Demoste” - assim ela o chamava, não conseguia finalizar a pronuncia correta-, “apusquê ocê num vende a porquinha e compra tudo de biete de loteria? Amanhã é o dia do Gasparino vim. Ieu sonhei desde antonte que desta veiz vai dá porco na cabeça e o numero é o 36471.Vende a porca, home, e compra tudo de biete...Vai sê batata. Pode acreditá!”
-“Vai tomá banho na soda, muié!!! Adonde já se viu fazê uma bestera dessas? Se eu trabaiando como um doido não consegui ate agora arguma coisa, pusquê seria que eu mudaria nossa vidinha com jogo. Ainda mais arriscano tanto dinheiro?”
-“Tô te falano, home, vende a porca e faiz o jogo com o Gasparino. Ocê vai vê. Vai sê batata. Num tem como num ganhá. Meu sonho num fáia. Vende e joga logo, peste!”
Não teve jeito. A grande convicção de Ana acabou por balançar, sobremaneira, as estruturas emocionais de Demóstenes. Outra opção não lhe restou senão a de fazer o que Ana insistentemente lhe recomendava.
-“Vô vendê essa mardita porca e vô fazê o que essa megera manda!”
Só que ai surgiu um grande problema: enquanto ele não decidia, a porquinha que não era besta nem nada, torceu o rabo e deu no pé. Queimou o chão, ou melhor, escafedeu-se rumo a Salinas. No dia seguinte, Gasparino, o Cambista, passou como de costume no casebre de Demóstenes e, ironia do destino, pôs-lhe às mãos exatamente o bilhete tal qual Ana havia descrito. Pobre Demóstenes, por mais que insistisse, Gasparino não lhe vendeu fiado. Recorreu a vizinhos, mas nada conseguiu. No desespero, contou o sonho de Ana para Gasparino que num sorriso sarcástico disse-lhe: agora não vendo este bilhete nem pelo dinheiro de 100 porcas. Ele é meu!
No dia seguinte, pelo Rádio, veio o resultado: Atenção Senhoras e Senhores. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro informa o resultado da Loteria Federal do Brasil: primeiro prêmio 36471. Segundo informação da Caixa Econômica Federal este bilhete foi vendido no norte das Minas Gerais, ou precisamente na Cidade de Francisco Sá. Boa sorte ao feliz ganhador e que faça bom proveito dessa grande fortuna!
É...
Por vezes, a sorte é como um cavalo arriado: se você não se jogar na hora exata, bate com os fundilhos no chão. Nem sempre há tempo para se pensar.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 28 de agosto de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - MONOTONIA BREJEIRA

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - MONOTONIA BREJEIRA


Enoque Alves Rodrigues

Tardes tristes e modorrentas eram aquelas tardes da Francisco Sá do inicio dos anos 1970. Se durante os dias úteis da semana o brejeiro, envolvido com a luta pela sobrevivência nem sentia o tempo passar, tomado que era pela árdua lide diária. Aos domingos, único dia reservado para seu descanso, não tinha quase nada de novo a fazer. A Cidadezinha, pródiga em pontos turísticos lindos e atrativos aos forasteiros, não oferecia mais nenhuma sensação a gente do lugar. Os fatos e acontecimentos por ali simplesmente “não aconteciam”. Muitos anos-luz, outrora, distanciavam Brejo das Almas do burburinho dos grandes centros urbanos. Para se sintonizar com as novidades, tinha que sair do Brejo. As noticias lá chegavam a passos de tartaruga e o brejeiro, coitado, vivia ansioso pela falta de informação de outras plagas.
Tardes domingueiras, então? Meu Deus, quanta tristeza. Que tédio!
Os homens não tinham opção. Ou ficavam em casa cuidando dos passarinhos, olhando para o teto ou brigando com as crianças e com patroa, ou embrenhavam-se, de corpo e alma, nos incontáveis botecos de então, aonde afogavam literalmente, suas mágoas, desilusões amorosas, solidão e falta de perspectivas, na pior pinga brejeira de graduação alcoólica beirando aos 100º. Por ser ruim, assim como toda cachaça, era a mais barata ou era a pinga que o parco orçamento permitia degustar, ou melhor, engolir. Ao entrar o primeiro gole goela abaixo, o pouco juízo que tinham simplesmente saia pelas orelhas. E o brejeiro, enquanto suas pernas conseguiam mantê-lo de pé, soltava a língua. Não. Naqueles tempos não era comum se falar da vida alheia. O brejeiro, depois de alguns goles, esquecia-se de tudo e de todos. Sequer imaginava sua vidinha monótona, Severina e extremamente miserável. Ele ficava eufórico. Ficava rico. Contava vantagens. Tudo dentro de uma ingenuidade que beirava a legião dos anjos. Havia sim, alguns fanfarrões e muitos arruaceiros. Mas esses eram poucos e não duravam muito. Ao notarem o quão pacatos eram os “points” e sua gente, sumiam-se em direção a outras freguesias. E quando não tinham mais dinheiro para beber, penduravam a conta para um dia, quem sabe, quando Deus quiser, pagar. Quando já estavam embriagados procuravam, finalmente, o caminho de casa. No entanto, poucos a alcançavam. A casa, não obstante se localizar a poucos metros do bar, ou havia se deslocado do lugar aonde por séculos haviam estado ou simplesmente desaparecia como por encanto. É não era fácil.
Para aqueles que não se entregavam aos deleites da pinga, restava apenas “pescarem” alguma casa que tinha televisão, na época, só havia o preto e branco, e se oferecer para juntar-se aos familiares do dono da casa para assistir “Silvio Santos, vem ai. Há...Hai...Hu...Hui!!!
Como, é claro, poucas casas possuíam televisor. Não havia televisão para todos, e o brejeiro ficava, então, às espreitas de um homenzinho, moreno, baixo, meio gordo, com dois dentes de ouro na boca, que a qualquer momento, como num passe de mágica, poderia brotar de qualquer lugar, vindo de todos os rumos. Era “Zezim Tocador”, puxando seu velho fole, entoando musicas antigas e tristes acompanhadas sempre pelos latidos de seu cão vaza-mundo. Eram musicas como “tristeza do jeca”, “saudade de matão” e outras quinquilharias poéticas de nosso sentimento caboclo.
Todos juntavam-se a sua comitiva e só se recolhiam as suas casas depois de haverem percorrido todas as ruas do velho Francisco Sá, Brejo das Almas dos meus encantos. Éramos felizes e não sabíamos.
É...
Por vezes, não necessitamos de muito para sermos felizes...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.



domingo, 22 de agosto de 2010

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – PEDRO CIPÓ

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – PEDRO CIPÓ

Enoque Alves Rodrigues

Ele era o mais temido valentão de Francisco Sá, outrora Brejo das Almas. Por onde passava semeava medo, pavor e suplicio a pacata gente brejeira. Os homens ao vê-lo a distancia, fugiam. Não respeitava sequer mulheres e crianças. Bares e demais localidades onde os brejeiros de então se reuniam esvaziavam-se com sua presença. Um simples olhar não correspondido era suficiente para que ele partisse para cima das pessoas sem dó e piedade. Muitos bravos daquela época tremiam nas bases só de ouvir o seu nome.
Pedro Cipó, assim era chamado. Pistoleiro de dedo mole que não pensava duas vezes para puxar o gatilho. Matara muitos sem qualquer motivo, se é que existe no mundo qualquer motivo que justifique que um tire a vida do outro, prerrogativa única e exclusiva do Criador do homem e de todas as coisas. Para disfarçar sua real profissão de pistoleiro, ou seja, individuo que matava por encomenda, mantinha, como fachada, uma pequena venda de frutas e cereais nas cercanias do velho cemitério de Francisco Sá, ou precisamente na Rua das Aroeiras.
Numa das muitas pendengas que arranjava com facilidade acabou por matar um rapazola, ainda imberbe, fazendeiro dos baixios da Serra do Catuni.
Certo dia, desentendera-se com o moço Donato Pinto de Magalhães, rapaz de ótima conduta. Segundo diziam, o Pedro Cipó julgou-se desfeiteado com as respostas que o Donato lhe dera, e prometia mata-lo. Corria o boato de que o pistoleiro tinha o “corpo fechado”, isto é, as armas não davam fogo contra ele e, quando isto acontecesse, as balas não lhe penetravam à pele, perito que era ele na arte da mandinga.
E se encontraram na Rua das Aroeiras, perto da casa de Pedro Cipó, que ameaçava o Donato, dizendo-lhe mais ou menos isto:
- Segura, menino, que vou lhe dar uma lição.
Mas o Donato, moleque, não quis ser mais um alvo da pontaria certeira do Negro Pedro Cipó, e sabia que, se não o eliminasse antes não se defenderia de sua traição.
Por segurança, quando Pedro Cipó marchava em sua direção, Donato, testando os poderes sobrenaturais do Negro, dá um tiro para o ar. E, tcham... tcham... tcham... Para sua surpresa. Eureka! A arma disparou. Incontinenti, sem perder um segundo sequer, dá no gatilho. E era uma vez um pistoleiro de nome Pedro Cipó...
Galgando a sua montaria que estava perto, Donato se evade do local.
No Grupo Escolar onde naquele momento o Professor Neco ministrava suas aulas, ouviram-se os tiros e a gritaria. Donato matou Pedro Cipó... Donato matou Pedro Cipó...
Todos os alunos puseram-se em debandada. Incrédulos e curiosos, queriam certificar-se de que a noticia era verdadeira. Ao professor Neco, que por ser surdo, nada ouvira daquela “revoada de petiz”, restou-lhe apenas continuar defronte ao quadro negro com seu giz a mão, a escrever a lição do dia. Ao tornar-se de frente para a “turma” para tomar-lhe a lição, apenas e tão somente vento havia. Nenhum sinal de seus pupilos. Foi muito difícil ao velho professor, entender, horas depois, o que ocorrera. Principalmente por saber que Donato, menino franzino e inofensivo, de feições franciscanas, jamais antes matara uma barata sequer.
É...
Por vezes, é exatamente de onde não se espera é que se sai. Todos são grandes e valentes o suficiente quando estão em perigo.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.