sábado, 5 de fevereiro de 2011

AS JÓIAS DO BREJO I - JOSÉ DIAS PEREIRA

AS JÓIAS DO BREJO I - JOSÉ DIAS PEREIRA

Enoque Alves Rodrigues

É de conhecimento de todo e qualquer brejeiro o peso que tem, ainda hoje, o sobrenome “Dias” na política e, principalmente, no desenvolvimento sócio econômico de Francisco Sá, como um todo. Não é preciso arriscar muito para afirmar que por muito pouco os “Dias” se equiparariam aos Silveira, claro, não fossem estes imbatíveis e insuperáveis. O certo é que desde que Francisco Sá, ou Brejo das Almas se entende por “gente”, os clãs “Silveira e Dias” sempre se revezaram em seu cotidiano. Chegavam mesmo, outrora, a fomentar animosidades em seus relacionamentos políticos sem qualquer prejuízo ao amistoso. Estas tradicionalíssimas famílias conseguiam ser inimigas no âmbito da política sem o ser no familiar. Casavam-se “Dias” com “Silveira” e vice-versa. As relações entre estas jóias do Brejo tinham que ser mantidas no mais alto nível com o único e mutuo objetivo de preservar o crescimento e projeção do lugar. Entre os muitos “Dias” que não obstante a minha ainda hoje “tenra idade” conheci, destacarei no episodio de hoje, sucintamente, já que seria impossível relacionar todas as ações, predicados e virtudes do aludido, alguns feitos que já naquela longínqua época demonstravam o quão visionário, arrojado e empreendedor era o nosso “cana-brava” José Dias Pereira. Não é difícil falar desse caboclo apesar do pouco ou quase nada existir a seu respeito nos livros escritos e compulsados na região. Mas é assim mesmo, a história costuma não fazer justiça àqueles que mais realizaram, apesar de que, como se verá mais adiante, o personagem de hoje, nominar algumas ruas e instituições de ensino.
Matuto e inculto, porem educado, humano e sensível. Assim era José Dias Pereira. Grande faro para os negócios acompanhado de imensa dedicação e desprendimento. Construiu com suas próprias mãos, sem contar com herança alguma, todo o seu patrimônio que não era pouco. Dividiam suas rentáveis atividades nos campos de fazendas de criar onde se achavam infestadas de bois de corte, plantações a perderem de vista de cana de açúcar, algodão, alho, etc., casas comerciais diversificadas e muitas outras labutas que lhes auferiam merecidamente lucros astronômicos. Tudo dentro da mais pura e correta honestidade fator este do qual não abria mão.
O homenageado de hoje tinha lá suas maneiras muito próprias, e até mesmo curiosas de colocar a sua máquina de “fazer dinheiro” para funcionar. O homenzarrão parecia não dormir, jamais. No afã de colaborar com o crescimento da região, de sua gente e, claro, seu próprio, não media esforços. De madrugada, quando o galo ainda cantava e o astro rei sequer sonhava em dar as caras, ele já saltava da cama lá em “Cana Brava” onde tinha o seu “quartel general” e de posse de uma velha e enferrujada enxada, ia de porta em porta acordar os homens da casa, previamente comprometidos com ele e sua lide. Era com prazer que se trabalhava para aquele caboclo, até porque naqueles tempos, por aquelas míseras plagas onde, com orgulho, nasci, não se havia outro meio de se ganhar a vida senão suando a camisa no calor causticante da terra vermelha. E aquele caboclo honrava o trato. Jamais passou a perna em quem quer que seja. Era difícil o despertar para o brejeiro de cana brava naqueles tempos... Qualquer desavisado que porventura pretendesse fazer corpo mole e seguir dormindo estava literalmente lascado. Já ao longe se ouvia o tilintar da pedra na velha enxada seguido de fortes gritos enquanto a plebe já se reunia à frente de seus casebres.
O matuto, homenageado, vinha lá quase que sempre vestido com uma calça “arranca toco”, camisa feita de tecido de algodão semelhante ao que se usa no fabrico de sacos de açúcar, sobre a qual, invariavelmente, mantinha um velho e surrado jaleco de couro. Nos pés, um não menos velho e surrado par de botas de couro em cujas botas, pasmem, estivesse ele à pé ou à cavalo, estavam sempre ornamentadas com reluzentes esporas com suas serrilhas afiadíssimas. Sua maneira despojada e despreocupada de se vestir era imutável. Suas vestimentas pareciam fundir-se à sua própria personalidade. Era uma figura.
Zeca Guida: Era esta a sua alcunha. O Zeca Guida de Canabrava ou seria a Canabrava do Guida?
Bem isso pouco importa. O que importa mesmo é que não existia ali nenhum outro benfeitor com quem  a gente necessitada pudesse contar. Era somente o Zeca Guida.
- “Zeca, priciso cuocê me impresta uma frôr de abróba pra enviá u’a receicha qui mi deu seo dotô João Alve prá expursá bichios da barriga de Tonha”.
Tem que traduzir: Zeca, necessito que você me empreste uma nota de mil cruzeiros para poder aviar uma receita que foi dada pelo senhor doutor João Alves à Antonia, para expelir vermes.
- “Pois não, Carrim, (Carlinhos) manda a Tonha passá lá em casa e pegá com a Lia”. Pede prá Tonha não esquecê de alembrá Lia pra ela não esquecê de anotá pra discontá no fim do mêiz.”
Outro, premido por suas necessidades também acorria ao benfeitor.
- “Eu gostcharia muincho de vim trabaiá com o sinhô, mais o ganhame aqui é muincho poco!”
- “Não tem importança, não, sô. Vá entonce trabaiá cum Erpido”. (Elpídio)
- “Mais Erpido tamêm paga poco!”, - respondia o peão, desolado.
- “Entonce vai lambê sabão de preda prá fazê escuma. O entonce vá esvaziá a lagoa das preda cum caxa de fosco” (esvaziar a lagoa das pedras com caixa de fóscoro).
Enquanto isso, outro peão expressando-se em peculiar mineirismo, próprio de alguns de nós montanheses, tentava justificar sua possível ausência ao terreiro para ajudar a bater feijões. (várias pessoas se reuniam ao redor de um monte de feijão cada qual com um cambão que consiste em dois pedaços de paus presos um ao outro por um relho de couro na ponta, com os quais batiam sobre o monte de feijões).
- “Então, ficamos assim, seu Zé (este falava bem). Eu estarei lá ás 6 horas... Mas se até as 5 horas eu não chegar é porque eu não fui!”
- “Não. Isso num tá certo, respondia Zeca, desse jeicho só ocê ganha e ainda bangunça as minha idéias. Vamo simprificá isso: eu vô te esperá só até às 5 hora. Se até as 6 hora ocê num chegá eu vô imbora e ocê num pricisa vim mais. Pode percurar otro patrão pra trabaiá qui eu num vô mais servi ocê”.
Era a linguagem brejeira se alinhando para romper as barreiras do entendimento. Zeca Guida, não obstante ter sido homem de poucas letras, se expressava muito bem. No entanto, muitas eram as vezes em que ele tinha que se expressar na linguagem cabocla para se fazer entender melhor.
E...
Por vezes, dizia Sun Tsu, “há momentos que a maior sabedoria é parecer não saber nada”.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Escritor, Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

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